Os sete saberes necessários à educação do futuro
Por Maria Fernanda Salles de Aguiar
Escrito em 1999 por solicitação da UNESCO, como um conjunto de reflexões que servissem como ponto de partida para pensar a educação do próximo milênio, Os sete saberes necessários à educação do futuro, de Edgar Morin, um dos grandes pensadores ocidentais do século XX, é um livro admirável em sua forma e concepção. Com pouco mais de 120 páginas aborda questões profundas como a história do mundo, a evolução da humanidade, os rumos da ciência e da tecnologia, a formação do cérebro, o comportamento das culturas e... a educação. Dividido em sete capítulos (I- As cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão; II- Os princípios do conhecimento pertinente; III- Ensinar a condição humana; IV- Ensinar a identidade terrena; V- Enfrentar as incertezas; VI Ensinar a compreensão; VII- A ética do gênero humano), Morin apresenta o mundo e a humanidade como organismos absolutamente interligados, sendo que a sobrevivência de um depende da realização do outro em suas dimensões individual e coletiva, sem o que o desenvolvimento técnico e econômico pouco significam. Concebido unicamente de modo técnico e econômico, o desenvolvimento chega a um ponto insustentável, inclusive o chamado desenvolvimento sustentável. É necessário uma noção mais rica e complexa do desenvolvimento, que seja não somente material, mas também intelectual, afetivo, moral..., conclui Morin (pg. 69). Portanto, uma educação transdisciplinar, capaz de rejuntar ciências e humanidades e romper com a oposição entre natureza e cultura (orelha), mais do que uma posição ideológica relacionada à um tipo de educação passível de escolha entre tantas outras, é uma condição sine qua non para a sobrevivência da espécie humana e para a continuidade do planeta. A educação do futuro conduziria à tomada de conhecimento e, por conseguinte, de consciência da condição comum a todos os humanos e da muito rica e necessária diversidade dos indivíduos, dos povos, das culturas, sobre nosso enraizamento como cidadãos da terra... (pg. 61) Como promover uma educação que leve em consideração a unidade e a dualidade do homem? Como levar em consideração o que a humanidade possui de específico e de comum ao mesmo tempo, respeitando a riqueza de uma cultura que nasce local sem esquecer a questões globais? Como fazer com que o homem se relacione com as questões de uma civilização que atingiu um desenvolvimento técnico impensável e que cada vez mais cria conexões e interdependências entre as diversas culturas? Todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o conjunto das autonomias individuais,das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana, avalia Morin (pg. 55) em uma das pistas que nos oferece neste enxuto, mas valioso, tratado sobre educação.
Dois links e complementares: http://pt.wikipedia.org/wiki/Edgar_Morin - pequena biografia e principais obras http://ww2.prefeitura.sp.gov.br/secretarias/meio_ambiente/umapaz/files/Morin.pdf - uma resenha de "Os sete saberes" muito boa. Infelizmente, não assinada.
domingo, 6 de abril de 2008
Resenha do livro de Edgar Morin
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários a educação do futuro. São Paulo, Cortez, 2000. 177p.
Edgar Morin começa seu tratado a a respeito do que ele acreditar ser os elementos necessários a educação do futuro (que começa hoje) apontando as falhas da educação atual: o ensino fragmentado em disciplinas, a arrogância dos paradigmas racionalistas que não levam em conta a afetividade do ser humano. Ele descreve os erros e as ilusões do conhecimento, como os erros mentais, intelectuais, racionais e a cegueira dos paradigmas. Uma surpresa maravilhosa é o conceito de noologia e sua descrição. Sua explicação a respeito da incerteza do conhecimento é desafiante.
Após abrir os nossos olhos para a natureza do conhecimento, o autor fala a respeito da pertinência dele. Denuncia sua inadequação frente aos desafios do mundo.
“A esse problema universal confronta-se a educação do futuro, pois existe inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre, de um lado, os saberes desunidos, divididos, compartimentados e, de outro lado, as realidadees ou problemas cada vez mais multidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais e planetários.”
O autor enumera e descreve as noções de contexto, global (a relação entre o todo e as partes), o multidimensional e o complexo, enumera os problemas essenciais (disjunção e especialização fechada, redução (restrição do complexo ao simples) e a falsa racionalidade.
A seguir o autor fala da condição humana (simultaneamente dentro e fora da natureza), do duplo princípio biofísico e psico-sócio-cultural. Segundo ele:
“O homem é portanto, um ser plenamente biológico, mas se não dispusesse plenamente da cultura, seria um primata do mais baixo nível”.
O autor enumera a explica três circuitos da natureza humana:
1. Circuito cérebro-mente-cultura
2. Circuito razão-afeto-pulsão
3. Circuito indivíduo-sociedade-espécie
O autor também fala a respeito da unidade e diversidade humanas em suas esferas individual, social, cultural, as dualidades sábio louco, trabalhador lúdico empírico imaginário, econômico e consumista, prosaico e poético.
No capítulo 4 o autor expõe a mundialização, fala-nos do histórico deste processo que se iniciou no século XV e cita suas características no século XX.
O autor cita do legado do século XX (a herança da morte e os novos perigos (degradação ambiental, as novas e antigas doenças e as drogas), a morte da modernidade, bem como a nova esperança e a contribuição das contracorrentes).
Segundo o autor:
“Pode-se igualmente pensar que todas as aspirações que nutriram as grandes esperanças revolucionárias do século XX, mas que foram frustradas, poderão renascer na forma de nova busca de solidariedade e de responsabilidade
(...)
Precisamos doravante aprendeu a ser, viver, dividir e comunicar como humanos do planeta Terra, não mais somente pertencer a uma cultura, mas também a ser terrenos”
O autor continua, dizendo que devemos inscrever em nós:
1. A consciência antropológica
2. A consciência ecológica
3. A consciência cívica terrena
4. A consciência espiritual da condição humana
No capítulo 5 o autor diz que ‘o século XX descobriu a perda do futuro, ou seja, sua imprevisibilidade”(...) A tomada de consciência da incerteza histórica acontece hoje com a destruição do mito do progresso.” Para tanto, o autor descreve acontecimentos do século XX. Que interessante, descubro que este livro de Morin é contemporâneo do de Virilio, quando leio:
Quem, em janeiro de 1999, teria sonhado com os ataques sobre a Sérvia, em março de 1999, e no momento em que estas linhas são escritas, pode medir suas conseqüências?
O autor afirma que a educação do futuro deve voltar-se para as incertezas ligadas ao conhecimento pois existem princípios de incerteza: ccérebro-mental, lógica, racional, psicológica.
Há a incerteza do real, do conhecimento, da ação, e a imprevisibilidade a longo prazo. Para enfrenta-las são necessários meios para enfrenta-las, que são: o elemento de aposta nas decisões e a estratégi a em que se apresenta sempre de maneira singular em função do contexto e em virtude do próprio desenvolvimento, o problema da dialógica entre fim e meios.
No capítulo 6 o autor nos lembra que “nenhuma técnica de comunicação, do telefone a Internet, traz por si mesma a compreensão”. O autor continua: “Educar para compreender a matemática ou uma disciplina determinada é uma coisa, educar para a compreensão humana é outra. Nela encontra-se a missão propriamente espiritual da educação: ensinar a compreensão entre as pessoas como condição e garantia da solidariedade intelectual e moral da humanidade”
Pergunto eu: Isso não é tarefa dos pais ou familiares?
O autor continua afirma que há 2 formas de compreensão: a compreensão objetiva (Pessoa objeto) e a compreensão intersubjetiva (Pessoa pessoa), em que há empatia, identificação simpática e projeção.
O autor enumera os obstáculos exteriores à compreensão intelectual ou objetiva:
* Ruído
* Polissemia
* Ignorância dos ritos e costumes dos outros
* Incompreensão dos valores imperativos propagados no seio de outra cultura, dos imperativos éticos próprios a uma cultura
* Impossibilidade de compreender as idéias ou os argumentos de outra visão de mundo e de compreensão de uma estrutura mental em relação a outra.
Estes obstáculos devem-se ao egocentrismo, etnocentrismo-sociocentrismo e ao espírito redutor.
Para combater estes obstáculos o autor sugere:
A ética da compreensão
O bem pensar
A introspecção
“ A compreensão do outro requer a consciência da complexidade humana e que a verdadeira tolerância não é indiferente às idéias ou ao ceticismo generalizado. Supõe convicção,fé, escolha ética e, ao mesmo tempo, aceitação das idéias contrárias às nossas”
O autor afirma que “devemos relacionar a ética da compreensão entre as pessoas com a ética da era planetária, que pede a mundialização da compreensão, A única verdadeira mundialização que estaria a serviço do gênero humano é o da compreensão, da solidariedade intelectual e moral da humanidade (...) A compreensão é ao mesmo tempo meio e fim da comunicação humana (...) Dada a importância da educação para a compreensão, em todos os níveis educativos e em todas as idades, o desenvolvimento da compreensão necessita da reforma planetária das mentalidades, esta deve ser a tarefa da educação do futuro.”
No capítulo que fecha o livro o autor nos fala da ética propriamente humana, a antropoética, digo, a antropo-ética, que dever ser considerada como a ética da cadeia de três termos: indivíduo-sociedade-espécie, O autor fala longamente a respeito da importância da democracia (outro francês...). Eis um trecho significativo:
“Assim, todas as características importantes da democracia têm um caráter dialógico que une de modo complementar termos antagônicos: consenso e conflito, liberdade, igualdade e fraternidade, comunidade nacional e antagonismos sociais e ideológicos. Enfum a democracia depende das condições que dependem de seu exercício (espírito cívico, aceitação da regra do jogo democrático).
Ele termina seu capítulo, a meu ver forma muito humilde, afirmando que:
“Na verdade, a dominação, a opressão, a barbárie humanas permanecem no planeta e agravam-se. Trata-se de um problema antropo-histórico fundamental, para o qual não há solução a priori, apenas as melhoras possíveis e que podem tratar do processo multidimensional, que tenderia a civilizar cada um de nós, nossas sociedades, a Terra...
Não possuímos as chaves que abririam as portas de um futuro melhor. Não conhecemos o caminho traçado. Ao andar se faz o caminho.
Edgar Morin começa seu tratado a a respeito do que ele acreditar ser os elementos necessários a educação do futuro (que começa hoje) apontando as falhas da educação atual: o ensino fragmentado em disciplinas, a arrogância dos paradigmas racionalistas que não levam em conta a afetividade do ser humano. Ele descreve os erros e as ilusões do conhecimento, como os erros mentais, intelectuais, racionais e a cegueira dos paradigmas. Uma surpresa maravilhosa é o conceito de noologia e sua descrição. Sua explicação a respeito da incerteza do conhecimento é desafiante.
Após abrir os nossos olhos para a natureza do conhecimento, o autor fala a respeito da pertinência dele. Denuncia sua inadequação frente aos desafios do mundo.
“A esse problema universal confronta-se a educação do futuro, pois existe inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre, de um lado, os saberes desunidos, divididos, compartimentados e, de outro lado, as realidadees ou problemas cada vez mais multidisciplinares, transversais, multidimensionais, transnacionais, globais e planetários.”
O autor enumera e descreve as noções de contexto, global (a relação entre o todo e as partes), o multidimensional e o complexo, enumera os problemas essenciais (disjunção e especialização fechada, redução (restrição do complexo ao simples) e a falsa racionalidade.
A seguir o autor fala da condição humana (simultaneamente dentro e fora da natureza), do duplo princípio biofísico e psico-sócio-cultural. Segundo ele:
“O homem é portanto, um ser plenamente biológico, mas se não dispusesse plenamente da cultura, seria um primata do mais baixo nível”.
O autor enumera a explica três circuitos da natureza humana:
1. Circuito cérebro-mente-cultura
2. Circuito razão-afeto-pulsão
3. Circuito indivíduo-sociedade-espécie
O autor também fala a respeito da unidade e diversidade humanas em suas esferas individual, social, cultural, as dualidades sábio louco, trabalhador lúdico empírico imaginário, econômico e consumista, prosaico e poético.
No capítulo 4 o autor expõe a mundialização, fala-nos do histórico deste processo que se iniciou no século XV e cita suas características no século XX.
O autor cita do legado do século XX (a herança da morte e os novos perigos (degradação ambiental, as novas e antigas doenças e as drogas), a morte da modernidade, bem como a nova esperança e a contribuição das contracorrentes).
Segundo o autor:
“Pode-se igualmente pensar que todas as aspirações que nutriram as grandes esperanças revolucionárias do século XX, mas que foram frustradas, poderão renascer na forma de nova busca de solidariedade e de responsabilidade
(...)
Precisamos doravante aprendeu a ser, viver, dividir e comunicar como humanos do planeta Terra, não mais somente pertencer a uma cultura, mas também a ser terrenos”
O autor continua, dizendo que devemos inscrever em nós:
1. A consciência antropológica
2. A consciência ecológica
3. A consciência cívica terrena
4. A consciência espiritual da condição humana
No capítulo 5 o autor diz que ‘o século XX descobriu a perda do futuro, ou seja, sua imprevisibilidade”(...) A tomada de consciência da incerteza histórica acontece hoje com a destruição do mito do progresso.” Para tanto, o autor descreve acontecimentos do século XX. Que interessante, descubro que este livro de Morin é contemporâneo do de Virilio, quando leio:
Quem, em janeiro de 1999, teria sonhado com os ataques sobre a Sérvia, em março de 1999, e no momento em que estas linhas são escritas, pode medir suas conseqüências?
O autor afirma que a educação do futuro deve voltar-se para as incertezas ligadas ao conhecimento pois existem princípios de incerteza: ccérebro-mental, lógica, racional, psicológica.
Há a incerteza do real, do conhecimento, da ação, e a imprevisibilidade a longo prazo. Para enfrenta-las são necessários meios para enfrenta-las, que são: o elemento de aposta nas decisões e a estratégi a em que se apresenta sempre de maneira singular em função do contexto e em virtude do próprio desenvolvimento, o problema da dialógica entre fim e meios.
No capítulo 6 o autor nos lembra que “nenhuma técnica de comunicação, do telefone a Internet, traz por si mesma a compreensão”. O autor continua: “Educar para compreender a matemática ou uma disciplina determinada é uma coisa, educar para a compreensão humana é outra. Nela encontra-se a missão propriamente espiritual da educação: ensinar a compreensão entre as pessoas como condição e garantia da solidariedade intelectual e moral da humanidade”
Pergunto eu: Isso não é tarefa dos pais ou familiares?
O autor continua afirma que há 2 formas de compreensão: a compreensão objetiva (Pessoa objeto) e a compreensão intersubjetiva (Pessoa pessoa), em que há empatia, identificação simpática e projeção.
O autor enumera os obstáculos exteriores à compreensão intelectual ou objetiva:
* Ruído
* Polissemia
* Ignorância dos ritos e costumes dos outros
* Incompreensão dos valores imperativos propagados no seio de outra cultura, dos imperativos éticos próprios a uma cultura
* Impossibilidade de compreender as idéias ou os argumentos de outra visão de mundo e de compreensão de uma estrutura mental em relação a outra.
Estes obstáculos devem-se ao egocentrismo, etnocentrismo-sociocentrismo e ao espírito redutor.
Para combater estes obstáculos o autor sugere:
A ética da compreensão
O bem pensar
A introspecção
“ A compreensão do outro requer a consciência da complexidade humana e que a verdadeira tolerância não é indiferente às idéias ou ao ceticismo generalizado. Supõe convicção,fé, escolha ética e, ao mesmo tempo, aceitação das idéias contrárias às nossas”
O autor afirma que “devemos relacionar a ética da compreensão entre as pessoas com a ética da era planetária, que pede a mundialização da compreensão, A única verdadeira mundialização que estaria a serviço do gênero humano é o da compreensão, da solidariedade intelectual e moral da humanidade (...) A compreensão é ao mesmo tempo meio e fim da comunicação humana (...) Dada a importância da educação para a compreensão, em todos os níveis educativos e em todas as idades, o desenvolvimento da compreensão necessita da reforma planetária das mentalidades, esta deve ser a tarefa da educação do futuro.”
No capítulo que fecha o livro o autor nos fala da ética propriamente humana, a antropoética, digo, a antropo-ética, que dever ser considerada como a ética da cadeia de três termos: indivíduo-sociedade-espécie, O autor fala longamente a respeito da importância da democracia (outro francês...). Eis um trecho significativo:
“Assim, todas as características importantes da democracia têm um caráter dialógico que une de modo complementar termos antagônicos: consenso e conflito, liberdade, igualdade e fraternidade, comunidade nacional e antagonismos sociais e ideológicos. Enfum a democracia depende das condições que dependem de seu exercício (espírito cívico, aceitação da regra do jogo democrático).
Ele termina seu capítulo, a meu ver forma muito humilde, afirmando que:
“Na verdade, a dominação, a opressão, a barbárie humanas permanecem no planeta e agravam-se. Trata-se de um problema antropo-histórico fundamental, para o qual não há solução a priori, apenas as melhoras possíveis e que podem tratar do processo multidimensional, que tenderia a civilizar cada um de nós, nossas sociedades, a Terra...
Não possuímos as chaves que abririam as portas de um futuro melhor. Não conhecemos o caminho traçado. Ao andar se faz o caminho.
Resumo das principais idéias do livro Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro- Karen
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 8 ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2003.
1-As cegueiras do conhecimento
Para ensinar as bases de uma educação do futuro,Morim parte do princípio que todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão,e mais: não haveria conhecimento que não esteja, de certa forma, ameaçado pelo erro e pela ilusão.Isto pela razão de ser -o conhecimento- intermediado pela palavra que requer tradução, reconstrução e interpretação de sentidos.
Segundo o autor, nosso mundo psíquico (sonhos,idéias desejos,medos) está infiltrado em nossa visão de mundo exterior. Lembra ainda que a própria memória (seletiva) pode ser fonte de muitos erros . Desta forma,teorias fechadas em busca de uma única verdade absoluta não poderiam ver seus próprios erros.Estes seriam os erros da razão que confundiria a racionalidade(aberta,negocia com a irracionalidade) e a racionalização (nega-se à contestação de argumentos).
No mundo ocidental,os indivíduos conhecem,pensam e agem por meio de pares opositivos como claro/ escuro, bom / mau, corpo / alma (ao contrário de culturas que encaram estes pares como complementares, por exemplo, a representação oriental do yin/yang).
Culturas diversas elegem suas crenças e convicções valendo-se de paradigmas determinantes de estereótipos cognitivos que seriam o seu imprinting cultural e a sua normalização (normas,proibições,bloqueios) . De tão fortes ,estas idéias acabam nos possuindo, ao invés de serem dirigidas por nós, sujeitos humanos.O autor sugere que, na busca da verdade,deixemo-nos possuir por idéias de crítica, autocrítica, abertura e complexidade.
2-Os princípios do conhecimento pertinente
Como organizar e articular tantas informações ? Como entender o contexto e o complexo(global) na Era Planetária neste novo milênio? Morin propõe -nos uma reforma do pensamento, na qual devemos tornar evidentes tanto os contextos particulares quanto o global e complexo: “ É preciso recompor o todo para conhecer as partes”(38).
Devido à hiper-especialização ocorre uma disjunção, uma quebra de vínculos, na qual se perde o global e o essencial . O fosso entre uma especialização e outra ocultaria o imprevisto, o novo e a invenção.
3-Ensinar a condição humana
Todas as nossas condições no planeta Terra: cósmica, física , terrestre e humana devem ser analisadas para que se perceba a inter- relação(unidade humana) entre elas e como o resultado desta conjunção permitiu ao homem diferenciar-se dos demais pela cultura(diversidade humana).
Neste contexto, o autor aborda o ser humano complexo, seu caráter antagônico, reconhecendo inclusive o valor da a loucura: “O gênio brota na brecha do incontrolável, justamente onde a loucura ronda"(61).
4-Ensinar a identidade terrena no século 21 (a era planetária exige um pensamento policêntrico nutrido das culturas do mundo).
Em contraposição ao século passado ,que nos deixou uma herança de morte(guerras, extermínios,armas nucleares, morte ecológica, vírus e bactérias novas e mais resistentes, aumento do uso das drogas)e até mesmo da morte da modernidade (enquanto fé incondicional no progresso),devemos agora ter a 'cidadania terrestre' como nova missão da educação.
A proposta de reforma do pensamento de Morin basea-se na Terra como primeira e última pátria e a consciência cívica terrena: responsabilidades e solidariedade com os filhos da Terra, ou seja, a “simbiosofia”(sabedoria de viver junto).
5- Enfrentar as incertezas ligadas ao conhecimento
O século 20 descobriu a perda do futuro e sua imprevisibilidade: “o futuro chama-se incerteza”. A História não mais se repete ou progride em linha reta. A história é um complexo de ordem, deserdem e organização.Velhas certezas já não servem mais e prevalece a incerteza do conhecimento(ilusão e erro).
Neste caso, no campo da ação devemos saber planejar e prever estratégias , contando com o aleatório,o acaso, o imprevisto e possíveis transformações,de forma prudente e audaciosa ao mesmo tempo.
6- Ensinar a compreensão (“ a ética da compreensão pede que se compreenda a incompreensão”p.99)
Atualmente,apesar da comunicação quase que total, parece que a incompreensão humana é geral.Comparando a compreensão intelectual com a humana ,afirma que esta última vai além da explicação,pois seria composta por conhecimento sujeito a sujeito.Os obstáculos para compreensão seriam ,por exemplo, o egocentrismo, o etnocentrismo e o espírito redutor.Solução? A tolerância,garantida pela democracia, ainda que suponha o sofrimento de aceitar idéias(não insultos e agressões) que se oponham às nossas.Para o autor, comprender é aprender e reaprender incessantemente; e é fundamental para a reformadas mentalidades.
7- A ética do gênero humano (“...o imperativo tornou-se salvar a humanidade,realizando-a”)
Indivíduo/sociedade / espécie não são apenas inseparáveis, mas co-produtores um do outro.Segundo Morin, apenas a democracia permite o consenso(respeitando minorias), a diversidade e alimenta-se do ideal Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Karen Kipnis
Infoeducação ECA/USP
1-As cegueiras do conhecimento
Para ensinar as bases de uma educação do futuro,Morim parte do princípio que todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão,e mais: não haveria conhecimento que não esteja, de certa forma, ameaçado pelo erro e pela ilusão.Isto pela razão de ser -o conhecimento- intermediado pela palavra que requer tradução, reconstrução e interpretação de sentidos.
Segundo o autor, nosso mundo psíquico (sonhos,idéias desejos,medos) está infiltrado em nossa visão de mundo exterior. Lembra ainda que a própria memória (seletiva) pode ser fonte de muitos erros . Desta forma,teorias fechadas em busca de uma única verdade absoluta não poderiam ver seus próprios erros.Estes seriam os erros da razão que confundiria a racionalidade(aberta,negocia com a irracionalidade) e a racionalização (nega-se à contestação de argumentos).
No mundo ocidental,os indivíduos conhecem,pensam e agem por meio de pares opositivos como claro/ escuro, bom / mau, corpo / alma (ao contrário de culturas que encaram estes pares como complementares, por exemplo, a representação oriental do yin/yang).
Culturas diversas elegem suas crenças e convicções valendo-se de paradigmas determinantes de estereótipos cognitivos que seriam o seu imprinting cultural e a sua normalização (normas,proibições,bloqueios) . De tão fortes ,estas idéias acabam nos possuindo, ao invés de serem dirigidas por nós, sujeitos humanos.O autor sugere que, na busca da verdade,deixemo-nos possuir por idéias de crítica, autocrítica, abertura e complexidade.
2-Os princípios do conhecimento pertinente
Como organizar e articular tantas informações ? Como entender o contexto e o complexo(global) na Era Planetária neste novo milênio? Morin propõe -nos uma reforma do pensamento, na qual devemos tornar evidentes tanto os contextos particulares quanto o global e complexo: “ É preciso recompor o todo para conhecer as partes”(38).
Devido à hiper-especialização ocorre uma disjunção, uma quebra de vínculos, na qual se perde o global e o essencial . O fosso entre uma especialização e outra ocultaria o imprevisto, o novo e a invenção.
3-Ensinar a condição humana
Todas as nossas condições no planeta Terra: cósmica, física , terrestre e humana devem ser analisadas para que se perceba a inter- relação(unidade humana) entre elas e como o resultado desta conjunção permitiu ao homem diferenciar-se dos demais pela cultura(diversidade humana).
Neste contexto, o autor aborda o ser humano complexo, seu caráter antagônico, reconhecendo inclusive o valor da a loucura: “O gênio brota na brecha do incontrolável, justamente onde a loucura ronda"(61).
4-Ensinar a identidade terrena no século 21 (a era planetária exige um pensamento policêntrico nutrido das culturas do mundo).
Em contraposição ao século passado ,que nos deixou uma herança de morte(guerras, extermínios,armas nucleares, morte ecológica, vírus e bactérias novas e mais resistentes, aumento do uso das drogas)e até mesmo da morte da modernidade (enquanto fé incondicional no progresso),devemos agora ter a 'cidadania terrestre' como nova missão da educação.
A proposta de reforma do pensamento de Morin basea-se na Terra como primeira e última pátria e a consciência cívica terrena: responsabilidades e solidariedade com os filhos da Terra, ou seja, a “simbiosofia”(sabedoria de viver junto).
5- Enfrentar as incertezas ligadas ao conhecimento
O século 20 descobriu a perda do futuro e sua imprevisibilidade: “o futuro chama-se incerteza”. A História não mais se repete ou progride em linha reta. A história é um complexo de ordem, deserdem e organização.Velhas certezas já não servem mais e prevalece a incerteza do conhecimento(ilusão e erro).
Neste caso, no campo da ação devemos saber planejar e prever estratégias , contando com o aleatório,o acaso, o imprevisto e possíveis transformações,de forma prudente e audaciosa ao mesmo tempo.
6- Ensinar a compreensão (“ a ética da compreensão pede que se compreenda a incompreensão”p.99)
Atualmente,apesar da comunicação quase que total, parece que a incompreensão humana é geral.Comparando a compreensão intelectual com a humana ,afirma que esta última vai além da explicação,pois seria composta por conhecimento sujeito a sujeito.Os obstáculos para compreensão seriam ,por exemplo, o egocentrismo, o etnocentrismo e o espírito redutor.Solução? A tolerância,garantida pela democracia, ainda que suponha o sofrimento de aceitar idéias(não insultos e agressões) que se oponham às nossas.Para o autor, comprender é aprender e reaprender incessantemente; e é fundamental para a reformadas mentalidades.
7- A ética do gênero humano (“...o imperativo tornou-se salvar a humanidade,realizando-a”)
Indivíduo/sociedade / espécie não são apenas inseparáveis, mas co-produtores um do outro.Segundo Morin, apenas a democracia permite o consenso(respeitando minorias), a diversidade e alimenta-se do ideal Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Karen Kipnis
Infoeducação ECA/USP
sábado, 5 de abril de 2008
Resenha: Os sete saberes necessários à educação do futuro_Elisangela
MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 8 ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2003.
Em 1999, com o objetivo de aprofundar a visão transdisciplinar da educação para o século XXI, a UNESCO solicitou a Edgar Morin, reconhecido filósofo francês, a sistematização desta reflexão. O texto pretende expor problemas centrais ou fundamentais que permanecem ignorados ou esquecidos necessários para a educação do futuro. Morin também reconhece o saber científico provisório ao qual o texto se apóia e as regras próprias a cada sociedade e a cada cultura.
O livro é dividido em sete capítulos, ou sete eixos de interesse a todos preocupados com a educação:
- as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão;
- os princípios do conhecimento pertinente;
- ensinar a condição humana;
- ensinar a identidade terrena;
- enfrentar as incertezas;
- ensinar a compreensão;
- a ética do gênero humano
O primeiro eixo, sobre as cegueiras do conhecimento, trata da necessidade de cuidar do conhecimento do conhecimento a fim de preparar cada mente rumo à lucidez, já que todo conhecimento comporta o risco e a ilusão que parasitam a mente humana e subestimá-los é também um equívoco. Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos ou sinais captados e codificados pelos sentidos.
Dessa forma, a educação deve se dedicar à identificação da origem de erros, que podem ser:
_mentais, pois a nossa memória é seletiva e também sujeita ao erro;
_intelectuais, como a crença em doutrinas/dogmas, diferente das teorias científicas, que ainda com resistência podem ser refutadas, por sua natureza fechada e convencida de sua verdade os dogmas são invulneráveis às críticas que denunciam seus erros.
_erros da razão, diferente do racionalismo, que ignora os seres, a subjetividade e a afetividade, a verdadeira racionalidade é fruto do debate argumentado das idéias e, ainda assim, também traz a possibilidade de erro e de ilusões. Por isso, deve manter a postura autocrítica para enfrentar as incertezas vindouras.
A educação deve ainda considerar as cegueiras paradigmáticas, já que esta determina conceitos, comanda discursos e/ou teorias.
Pensar este dado com a “frieza” dos ambientes laboratoriais também é um equívoco, pois se a afetividade pode anular o conhecimento, também pode fortalecê-lo.
Acrescento a esta informação a questão da importância do investimento e cuidados na primeira infância, apontados atualmente por inúmeros pesquisadores. Nesta fase da vida ocorre a maior parte das ligações entre células cerebrais, as sinapses, responsáveis pela capacidade de aprendizagem, entendimento e comunicação. Pela observação, afeto e estímulos são produzidas habilidades básicas para anos mais tarde serem aprofundadas e produzidas novas habilidades.
O segundo eixo trata da pertinência do conhecimento e dos saberes cada vez mais compartimentados em oposição às realidades ou problemas cada vez mais multidisciplinares, transversais e planetários. O enfraquecimento da percepção do global conduz ao enfraquecimento da responsabilidade, pois cada um tende a ser responsável apenas por sua tarefa especializada, assim como o enfraquecimento da solidariedade. Por esta razão, quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise. Talvez seja mais fácil culpar um terceiro, já que o princípio da redução pode excluir tudo o que não seja quantificável e mensurável.
Para que o conhecimento seja pertinente, há um contexto. A educação deverá torná-los evidentes, pois o conhecimento das informações ou dados isolados é insuficiente. É preciso situá-los para que adquiram sentidos.
Há também a relação do global, entre o todo, com suas qualidades ou propriedades que não se encontram nas partes, bem como o caráter multidimensional do ser humano ao mesmo tempo biológico, social, afetivo, entre outras características que o campo do conhecimento deve considerar.
Assim, de modo multidimensional e dentro da concepção global, a educação deve promover a “inteligência geral” apta à complexidade (união entre a unidade e a multiplicidade) ao contexto. Para tanto, deve permitir fluir a curiosidade, ou despertá-la e, neste ponto, é difícil não lembrar o receio dos educandos, independente da idade, de serem criticados por seus pares ou educadores, diante da manifestação de suas indagações.
Morin cita ainda a preocupação com a ecologia em relação ao desmatamento. Certamente a “gaveta” nomeada “progresso/lucro” não consultou o saber local, em nome dos lucros financeiros utilizou a retórica como arma à "cegueira do conhecimento", ou simplesmente desconsiderou as conseqüências futuras.
A educação do futuro deve ser o ensino centrado na condição humana, como mostra o eixo III.
Conhecer o humano é, antes de mais nada, situá-lo no universo, e não separá-lo dele. Todo o conhecimento deve contextualizar seu objeto para ser pertinente. Interrogar nossa condição humana implica questionar nossa posição no mundo.
"O homem é, portanto um ser plenamente biológico, mas, se não dispusesse plenamente da cultura, seria um primata do mais baixo nível. A cultura acumula em si o que é conservado, transmitido, aprendido, e comporta normas e princípios de aquisição" (p.53). Há três circuitos:
- Cérebro/mente/cultura – o homem somente se realiza plenamente como ser humano pela cultura e na cultura.
- Razão/afeto/pulsão – há uma relação instável, permutante, rotativa entre estas três instâncias.
- Indivíduo/sociedade/espécie – cada um desses termos é ao mesmo tempo meio e fim: é a cultura e a sociedade que garantem a realização dos indivíduos, e são as interações entre indivíduos que permitem a perpetuação da cultura e a auto-organização da sociedade. Morin destaca “todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana” (p.55).
Como no artigo de Ferrez et al. discutido na última aula, Morin alerta para os cuidados com o tratamento homogêneo ao ser humano e à cultura, pois “compreender o humano é compreender sua unidade na diversidade, sua diversidade na unidade” (p.55).
É necessário consolidar os conhecimentos oriundos das ciências naturais, a fim de situar a condição humana no mundo, dos conhecimentos derivados das ciências humanas para colocar em evidência a multidimensionalidade e a complexidade humana.
No eixo IV, ensinar a identidade terrena, Morin retoma o estabelecimento da comunicação entre todos os continentes no século XVI, e mostra que o mundo está cada vez mais uno e paradoxalmente cada vez mais dividido. Entretanto, em meio a diferenças, todos temos a mesma herança: da morte, seja por armas nucleares, pelos novos e renovados vírus, ou ainda com as drogas; e a herança da modernidade com sua fé no progresso, na tecnologia, na ciência e desenvolvimento econômico capaz de testar bombas e ceifar vidas.
Mas há também a esperança com as contracorrentes presentes num universo de tantas posições e oposições, como a contracorrente ecológica, qualitativa, de resistência à vida prosaica, de resistência à primazia do consumo padronizado, de emancipação em relação à tirania e em reação ao desencadeamento da violência.
Pois, a mente humana traz consigo o pior perigo e também as melhores esperanças, por isso é vital o problema da reforma do pensamento.
Morin, destaca ainda que a era dos Estados-nações dotados de poder absoluto está encerrada, o que significa que é necessário não os desintegrar, mas respeitá-los, integrando-os em conjuntos e fazendo-os respeitar o conjunto do qual faze parte, seu passado, o presente e o futuro, e no qual projeta aspirações e esforços.
Vivemos a era das incertezas, como mostra o eixo V, ao iniciar com diversas questões às quais poucos poderiam conceber. Se esta obra fosse publicada após 2001, certamente constaria entre as incertezas históricas o ataque terrorista em 11 de setembro aos Estados Unidos da América, atual potência econômica e de renomada (ou ironicamente exagerada) segurança.
Assim, à educação do futuro, será preciso ensinar princípios de estratégia que permitiriam enfrentar os imprevistos, o inesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento em virtude das informações adquiridas ao longo do tempo.
Será necessário também educar para a compreensão, como mostra o eixo VI. Compreender significa intelectualmente aprender em conjunto (o texto e o seu contexto, as partes e o todo, o múltiplo e o uno) e Morin classifica duas formas de compreensão: a compreensão intelectual ou objetiva, passa pela inteligibilidade e pela explicação (explicar é considerar o que é preciso conhecer como objeto e aplicar-lhe todos os meios objetivos de conhecimento); e a compreensão humana que comporta um conhecimento de sujeito a sujeito. Compreender inclui, necessariamente, um processo de empatia, de identificação e de projeção. Sempre intersubjetiva, a compreensão pede abertura, simpatia e generosidade.
A compreensão também enfrenta obstáculos como (1) o “ruído”; (2) a polissemia, que ao ser enunciada uma frase pode ser compreendida com outro sentido; (3) a ignorância dos ritos e costumes do outro, que pode levar a se ofender inconscientemente ou desqualificar a si mesmo perante o outro (diversidade cultural); (4) a incompreensão dos valores imperativos de outra cultura; (5) a impossibilidade, enquanto visão de mundo, de compreender as idéias, os argumentos de outra visão de mundo, ou ainda a estrutura mental em relação a outra.
Para “bem viver”, ou “bem pensar”como consta no texto de Morin, é necessário buscar a compreenção de modo desinteressado e sem esperar nenhuma reciprocidade. A ética da compreensão pede que compreenda a incompreensão.
No último eixo, sobre a ética do gênero humano, é destacada a educação condutora à antropo-ética, a ética da cadeia de três termos: indivíduo/sociedade/espécie. Nesse sentido, a democracia favorece a relação rica e complexa do indivíduo/sociedade como um ser responsável e cidadão, porém, esta mesma democracia constitui um sistema político complexo, repleto de antagonismos, pluraridades e muitas vezes utiliza a ausência da consulta à comunidade.
Valores como a ética não poderiam ser ensinados por meio de lições, mas integram-se com base na consciência de que o humano é, ao mesmo tempo, indivíduo, parte da sociedade, parte da espécie.
Partindo disso, a educação deve contribuir para a tomada de consciência de nossa "Terra-Pátria", bem como permitir que esta consciência se traduza em vontade de realizar a cidadania e solidariedade.
Em 1999, com o objetivo de aprofundar a visão transdisciplinar da educação para o século XXI, a UNESCO solicitou a Edgar Morin, reconhecido filósofo francês, a sistematização desta reflexão. O texto pretende expor problemas centrais ou fundamentais que permanecem ignorados ou esquecidos necessários para a educação do futuro. Morin também reconhece o saber científico provisório ao qual o texto se apóia e as regras próprias a cada sociedade e a cada cultura.
O livro é dividido em sete capítulos, ou sete eixos de interesse a todos preocupados com a educação:
- as cegueiras do conhecimento: o erro e a ilusão;
- os princípios do conhecimento pertinente;
- ensinar a condição humana;
- ensinar a identidade terrena;
- enfrentar as incertezas;
- ensinar a compreensão;
- a ética do gênero humano
O primeiro eixo, sobre as cegueiras do conhecimento, trata da necessidade de cuidar do conhecimento do conhecimento a fim de preparar cada mente rumo à lucidez, já que todo conhecimento comporta o risco e a ilusão que parasitam a mente humana e subestimá-los é também um equívoco. Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos ou sinais captados e codificados pelos sentidos.
Dessa forma, a educação deve se dedicar à identificação da origem de erros, que podem ser:
_mentais, pois a nossa memória é seletiva e também sujeita ao erro;
_intelectuais, como a crença em doutrinas/dogmas, diferente das teorias científicas, que ainda com resistência podem ser refutadas, por sua natureza fechada e convencida de sua verdade os dogmas são invulneráveis às críticas que denunciam seus erros.
_erros da razão, diferente do racionalismo, que ignora os seres, a subjetividade e a afetividade, a verdadeira racionalidade é fruto do debate argumentado das idéias e, ainda assim, também traz a possibilidade de erro e de ilusões. Por isso, deve manter a postura autocrítica para enfrentar as incertezas vindouras.
A educação deve ainda considerar as cegueiras paradigmáticas, já que esta determina conceitos, comanda discursos e/ou teorias.
Pensar este dado com a “frieza” dos ambientes laboratoriais também é um equívoco, pois se a afetividade pode anular o conhecimento, também pode fortalecê-lo.
Acrescento a esta informação a questão da importância do investimento e cuidados na primeira infância, apontados atualmente por inúmeros pesquisadores. Nesta fase da vida ocorre a maior parte das ligações entre células cerebrais, as sinapses, responsáveis pela capacidade de aprendizagem, entendimento e comunicação. Pela observação, afeto e estímulos são produzidas habilidades básicas para anos mais tarde serem aprofundadas e produzidas novas habilidades.
O segundo eixo trata da pertinência do conhecimento e dos saberes cada vez mais compartimentados em oposição às realidades ou problemas cada vez mais multidisciplinares, transversais e planetários. O enfraquecimento da percepção do global conduz ao enfraquecimento da responsabilidade, pois cada um tende a ser responsável apenas por sua tarefa especializada, assim como o enfraquecimento da solidariedade. Por esta razão, quanto mais a crise progride, mais progride a incapacidade de pensar a crise. Talvez seja mais fácil culpar um terceiro, já que o princípio da redução pode excluir tudo o que não seja quantificável e mensurável.
Para que o conhecimento seja pertinente, há um contexto. A educação deverá torná-los evidentes, pois o conhecimento das informações ou dados isolados é insuficiente. É preciso situá-los para que adquiram sentidos.
Há também a relação do global, entre o todo, com suas qualidades ou propriedades que não se encontram nas partes, bem como o caráter multidimensional do ser humano ao mesmo tempo biológico, social, afetivo, entre outras características que o campo do conhecimento deve considerar.
Assim, de modo multidimensional e dentro da concepção global, a educação deve promover a “inteligência geral” apta à complexidade (união entre a unidade e a multiplicidade) ao contexto. Para tanto, deve permitir fluir a curiosidade, ou despertá-la e, neste ponto, é difícil não lembrar o receio dos educandos, independente da idade, de serem criticados por seus pares ou educadores, diante da manifestação de suas indagações.
Morin cita ainda a preocupação com a ecologia em relação ao desmatamento. Certamente a “gaveta” nomeada “progresso/lucro” não consultou o saber local, em nome dos lucros financeiros utilizou a retórica como arma à "cegueira do conhecimento", ou simplesmente desconsiderou as conseqüências futuras.
A educação do futuro deve ser o ensino centrado na condição humana, como mostra o eixo III.
Conhecer o humano é, antes de mais nada, situá-lo no universo, e não separá-lo dele. Todo o conhecimento deve contextualizar seu objeto para ser pertinente. Interrogar nossa condição humana implica questionar nossa posição no mundo.
"O homem é, portanto um ser plenamente biológico, mas, se não dispusesse plenamente da cultura, seria um primata do mais baixo nível. A cultura acumula em si o que é conservado, transmitido, aprendido, e comporta normas e princípios de aquisição" (p.53). Há três circuitos:
- Cérebro/mente/cultura – o homem somente se realiza plenamente como ser humano pela cultura e na cultura.
- Razão/afeto/pulsão – há uma relação instável, permutante, rotativa entre estas três instâncias.
- Indivíduo/sociedade/espécie – cada um desses termos é ao mesmo tempo meio e fim: é a cultura e a sociedade que garantem a realização dos indivíduos, e são as interações entre indivíduos que permitem a perpetuação da cultura e a auto-organização da sociedade. Morin destaca “todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana” (p.55).
Como no artigo de Ferrez et al. discutido na última aula, Morin alerta para os cuidados com o tratamento homogêneo ao ser humano e à cultura, pois “compreender o humano é compreender sua unidade na diversidade, sua diversidade na unidade” (p.55).
É necessário consolidar os conhecimentos oriundos das ciências naturais, a fim de situar a condição humana no mundo, dos conhecimentos derivados das ciências humanas para colocar em evidência a multidimensionalidade e a complexidade humana.
No eixo IV, ensinar a identidade terrena, Morin retoma o estabelecimento da comunicação entre todos os continentes no século XVI, e mostra que o mundo está cada vez mais uno e paradoxalmente cada vez mais dividido. Entretanto, em meio a diferenças, todos temos a mesma herança: da morte, seja por armas nucleares, pelos novos e renovados vírus, ou ainda com as drogas; e a herança da modernidade com sua fé no progresso, na tecnologia, na ciência e desenvolvimento econômico capaz de testar bombas e ceifar vidas.
Mas há também a esperança com as contracorrentes presentes num universo de tantas posições e oposições, como a contracorrente ecológica, qualitativa, de resistência à vida prosaica, de resistência à primazia do consumo padronizado, de emancipação em relação à tirania e em reação ao desencadeamento da violência.
Pois, a mente humana traz consigo o pior perigo e também as melhores esperanças, por isso é vital o problema da reforma do pensamento.
Morin, destaca ainda que a era dos Estados-nações dotados de poder absoluto está encerrada, o que significa que é necessário não os desintegrar, mas respeitá-los, integrando-os em conjuntos e fazendo-os respeitar o conjunto do qual faze parte, seu passado, o presente e o futuro, e no qual projeta aspirações e esforços.
Vivemos a era das incertezas, como mostra o eixo V, ao iniciar com diversas questões às quais poucos poderiam conceber. Se esta obra fosse publicada após 2001, certamente constaria entre as incertezas históricas o ataque terrorista em 11 de setembro aos Estados Unidos da América, atual potência econômica e de renomada (ou ironicamente exagerada) segurança.
Assim, à educação do futuro, será preciso ensinar princípios de estratégia que permitiriam enfrentar os imprevistos, o inesperado e a incerteza, e modificar seu desenvolvimento em virtude das informações adquiridas ao longo do tempo.
Será necessário também educar para a compreensão, como mostra o eixo VI. Compreender significa intelectualmente aprender em conjunto (o texto e o seu contexto, as partes e o todo, o múltiplo e o uno) e Morin classifica duas formas de compreensão: a compreensão intelectual ou objetiva, passa pela inteligibilidade e pela explicação (explicar é considerar o que é preciso conhecer como objeto e aplicar-lhe todos os meios objetivos de conhecimento); e a compreensão humana que comporta um conhecimento de sujeito a sujeito. Compreender inclui, necessariamente, um processo de empatia, de identificação e de projeção. Sempre intersubjetiva, a compreensão pede abertura, simpatia e generosidade.
A compreensão também enfrenta obstáculos como (1) o “ruído”; (2) a polissemia, que ao ser enunciada uma frase pode ser compreendida com outro sentido; (3) a ignorância dos ritos e costumes do outro, que pode levar a se ofender inconscientemente ou desqualificar a si mesmo perante o outro (diversidade cultural); (4) a incompreensão dos valores imperativos de outra cultura; (5) a impossibilidade, enquanto visão de mundo, de compreender as idéias, os argumentos de outra visão de mundo, ou ainda a estrutura mental em relação a outra.
Para “bem viver”, ou “bem pensar”como consta no texto de Morin, é necessário buscar a compreenção de modo desinteressado e sem esperar nenhuma reciprocidade. A ética da compreensão pede que compreenda a incompreensão.
No último eixo, sobre a ética do gênero humano, é destacada a educação condutora à antropo-ética, a ética da cadeia de três termos: indivíduo/sociedade/espécie. Nesse sentido, a democracia favorece a relação rica e complexa do indivíduo/sociedade como um ser responsável e cidadão, porém, esta mesma democracia constitui um sistema político complexo, repleto de antagonismos, pluraridades e muitas vezes utiliza a ausência da consulta à comunidade.
Valores como a ética não poderiam ser ensinados por meio de lições, mas integram-se com base na consciência de que o humano é, ao mesmo tempo, indivíduo, parte da sociedade, parte da espécie.
Partindo disso, a educação deve contribuir para a tomada de consciência de nossa "Terra-Pátria", bem como permitir que esta consciência se traduza em vontade de realizar a cidadania e solidariedade.
sexta-feira, 4 de abril de 2008
os sete saberes de Morin. Resenha Luciana
Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro_ resenha para a disciplina de INFOEDUCAÇÃO
Morin, Edgar - Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro 3a. ed. - São Paulo - Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2001_resenha de Luciana Rodrigues
Edgar Morin é um dos grandes pensadores da atualidade, um espírito questionador, que já excursionou por diversas áreas, inclusive o cinema.
No seu livro Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, realizado a pedido da UNESCO, mais uma vez dá mostras do quão está atento às questões mais prementes da atualidade, propondo eixos para o ato de educar mulheres e homens para novos desafios contemporâneos, como sujeitos comprometidos na superação dos grandes problemas do nosso planeta e sociedade, vitimas de visões fragmentadas que acabam por torna-los “invisíveis” aos estudos e governantes.
São EIXOS, que fique bem claro. O livro, objeto dessa resenha, não se trata de um manual ou de uma proposta de novos currículos para as escolas é, antes, uma pauta transversal para o ato de educar, o que todas as educadoras e educadores devem ter sempre presentes ao lidarem com os jovens educandos, que não podem ser ignorados ou diminuídos de importância.
Os saberes seriam:
1- O Conhecimento
2- O Conhecimento Pertinente
3- A Identidade Humana
4- A Compreensão Humana
5- A Incerteza
6- A Condição Planetária
7- A Antropo-ética
De uma forma bastante fluida e ilustrativa Morin explica cada um desses “saberes”, e eu me permito resumi-los a seguir.
O Conhecimento
Os educadores, no geral, ao ensinarem suas disciplinas nas escolas e universidades, acreditam que estão transmitindo CONHECIMENTOS. Entretanto, destaca Morin, não se ensina O QUE É CONHECIMENTO. É fundamental situar historicamente o conhecimento, como algo que não é absoluto, dogmático, não é certo, nem é um espelho da realidade. O conhecimento é algo que deve ser questionado sempre, pois se trata de uma versão, de um recorte da realidade, uma tradução, passível de erros e ilusões por ser, como tal, fruto de reconstruções.
A reconstrução é algo pelo qual também passa a nossa percepção, que se opera através de estímulos mediados por transformações, decodificações e transportes a outros códigos, tal como é o fenômeno da visão, que Morin usa para exemplificar o que seriam as reconstruções sempre sujeitas a erros.
Então percepção e alucinação podem ser facilmente confundidas por qualquer um de nós. Estamos constantemente ameaçados pela ilusão, podemos acreditar na existência de algo que nada mais é do que uma confusão da nossa mente, dissipada apenas por saberes que já possuímos ou pela confrontação com outros. A própria história é pródiga em exemplos de erros podem gerar grandes desastres, como nas guerras, onde os opositores transmitem informações que escamoteiam o que lhes pode ser desvantajoso e ressaltam os pecados criminosos dos demais.
Resumindo: devemos deixar claro que não existem verdades únicas e absolutas, pois o que podemos considerar realidade é algo permeado e mediado, fruto de traduções e reconstruções que podem advir e gerar erros, que também podem ser causados por incompreensões decorrentes de várias diversidades culturais e de origem.
Daí entra o que seria uma consideração de normalidade. O fato é que tendemos a considerar nossos pensamentos e atitudes como sendo OS normais, portanto as mais fáceis de serem compreendidos e adotados, o que, salienta o autor, pode gerar uma postura normativa. O que não estaria dentro dos nossos padrões (normais) seria considerado um desvio. O autor o observa que essa atitude não é somente comum em seitas ou ideologias políticas, mas que também a ciência já se comportou dessa forma, ao negar determinadas idéias que depois foram aceitas, em paradigmas próprios de cada época , vale usar as suas palavras ao citar Lênin "as crenças e idéias não são somente produtos da mente, mas também seres mentais que têm vida e poder; e assim, podem possuir-nos".
O problema do conhecimento deve ser colocado em tela constantemente, a todos e todas, que devem ser encorajados na arte da tentativa e erro, na busca por uma realidade, que pode, e deve, ser confrontada a todo momento, como uma grande aventura a que devemos nos lançar, preparados para uma jornada rica em incertezas e surpresas.
O Conhecimento Pertinente
Morin constata que, comumente, ao se ensinar se transmite um conhecimento fragmentado, mutilando seu objeto. Não ensinamos as condições de um conhecimento pertinente.
Se a divisão do ensino em disciplinas especializadas, por um lado, ajudou no avanço do conhecimento por outra permitiu que o que existe de conexão entre elas se tornasse invisível, sem situar o conjunto da realidade, sem ligar as partes com o todo.
Nenhum saber altamente especializado consegue dar conta de um conhecimento pertinente do mundo, como mundo, sem se colocar dentro de um contexto maior. Esse entendimento é essencial, pois o contexto global exige de todos nós a organização das informações através do acesso a elas, para reconhecimento dos problemas que nos são comuns, entendendo que os contextos locais influenciam e afetam todo o contexto global, marcado por grandes problemas. O desenvolvimento da aptidão de organizar esse conhecimento deve ser um dos eixos da educação, ligando as partes e ao todo às partes, preparando para pensarmos e solucionarmos as crises planetárias.
O livro Os Sete Saberes necessários à educação do futuro detecta uma distorção entre as ciências e as humanidades nos sistemas de ensino, que portam antinomias e separam o que deveria estar unido, uma nova cegueira para os problemas globais . O resultado disso é um enfraquecimento das responsabilidades individuais e, assim, da solidariedade.
,
A Identidade Humana
Assim como um dos eixos da educação deve ser o de contextualizar o conhecimento dentro da realidade do todo, não se pode ignorar o aspecto da identidade humana, constantemente fragmentada nas diversas disciplinas, como se ela não fosse, a um só tempo, física, biológica, psíquica, cultural, social e histórica. O ensino fragmentado acaba por tratar o indivíduo de forma fragmentada também, como se fosse possível dissociar o indivíduo como parte de uma espécie E de uma sociedade, da qual depende e pela qual é responsável.
Essa relação se dá, assim, em forma de tríade: indivíduo/sociedade/espécie e é assim que deve ser tratada na transmissão de TODOS os saberes educacionais. Todos os indivíduos são seres diversos e unos, fragmentos e todo, um não deve anular o outro, e assim devem ser tratados em todas as esferas do conhecimento.
A Compreensão Humana
A palavra compreender vem do latim compreendere, que quer dizer: colocar junto todos os elementos de explicação. A compreensão abarcaria um significado racional, objetivo e um significado subjetivo, humano. O primeiro busca significado lógico, intelectual, se baseia em explicações formais, mas que estão sujeitas a ruídos e erros diversos. O segundo vai além de qualquer entendimento lógico, de análises objetivas, por ter em si cargas emotivas que são comuns aos da nossa espécie, atraídos por empatia, identificação, projeção e que geram solidariedade.
Afundados em sua cegueira, os sistemas educacionais não se preocupam em ensinar a compreender, não demonstram que somos parte de um planeta e que o futuro dele, e do nosso, por conseguinte, nos tornam dependentes um dos outros. Não somos estimulados a compreender o próximo, esteja ele realmente próximo, como nosso vizinho, ou no outro lado do planeta. Então o que acabamos por valorizar é um individualismo nefasto, que nos faz rejeitar ou ser indiferente ao outro, destruindo qualquer capacidade de compreensão e comunicação.
A compreensão deve ser estudada em sua gênese e nas suas conseqüências, como os preconceitos de qualquer forma, sexuais, de gênero, raciais e étnicos, para que as relações de solidariedade sejam maiores dos que as diferenças geradas pela incompreensão.
A Incerteza
Um dos grandes inimigos do ato de educar deveriam ser os dogmas. As escolas devem ensinar que a inexistência de verdades absolutas levam às incertezas e que elas são, isso sim, a regra, (e não a certezas). Ao transmitirem somente conhecimentos que as ciências têm como certos se acaba por ignorar incertezas históricas que foram fundamentais, inclusive nas ciências biológicas, físicas e humanas. Assim se deu, até mesmo, na evolução das espécies, sujeitas a diversas ramificações.
Quando salientamos a existência de incertezas devemos ensinar como enfrenta-las, tendo como horizonte o inesperado. Morin cita o o poeta da ironia trágica Eurípedes (aproximadamente no ano 496 a 405 da era pré-cristã, em Ática): “O esperado não se cumpre, e ao inesperado um deus abre o caminho".
Qualquer visão determinista que procurava dar um sentido único para a história da humanidade caiu por terra frente a uma quantidade de acontecimentos graves, e totalmente inesperados, como as grandes guerras.
Ensinar para as incertezas não deve servir para desencorajar ou estimular posições hedonistas ou voluntaristas, antes deve contribuir com o entendimento de que esse futuro é aberto, incerto, mas que pode ser construído levando-se em conta os erros e as incertezas que surgem e que são passíveis de correções.
A Condição Planetária
Que somos parte do mesmo planeta e temos responsabilidades entre nós, seres humanos e ele, o planeta, já falei nessa resenha. Mas vale comentar mais uma vez que esse estudo para a UNESCO preocupa-se particularmente com a questão de que estamos todos interligados, principalmente em tempos de globalização. Tudo se conecta, tudo se liga, tudo está interdependente, todavia os bancos educacionais, soterrados por informações desorganizadas e excessivas, não conscientizam de que os problemas do planeta se agravam e afetam a todos os seres humanos, em um destino comum.
Vivemos tempos de grandes ameaças de nível global, a degradação do planeta por desastres ecológicos ou nucleares.
Então só apontar para os problemas da humanidade é muito pouco, dada as suas complexidades, embora todos estejam ligados. O ensino deve mostrar que esses problemas não estão externos aos jovens, mas que são parte de sua humanidade, e comunidade e seu destino comum, criando uma consciência planetária que deve incluir a ecologia, a luta pela qualidade de vida, a resistência à vivência puramente utilitária, valorizando os prazeres, o combate ao consumo padronizado, a emancipação em relação à tirania do lucro e o fim de qualquer forma de violência.
A Antropo-ética
O processo educacional deve ser orientado pelo que o pensador francês chama de antropo- ética.
A ética, como já foi dita diversas vezes e por diferentes estudos, depende da cultura espacial e temporal na qual está inserida. Também a moral e a ética dependem da natureza humana. Então temos presente aspectos individuais, sociais e de espécie presentes na condição humana, que fazem o indivíduo desenvolver conjuntamente sua autonomia pessoal, sua participação social e a ética já que, como foi dito, temos todos um destino comum. Somente a democracia pode desenvolver a faceta social da antropo- ética, pois é a única que permite que a relação indivíduo- sociedade se desenvolva de forma quase plena (a democracia, principalmente a representativa, possui limitações), porque a democracia é um exercício de controle, fundamental para o desenvolvimento da responsabilidade planetária.
Educar com base na antropo- ética é conscientizar sobre a cidadania, que não se limita a um espaço pequeno, comunitário, mas é planetária. Ser cidadão terreno é ser responsável pelo combate aos grandes problemas da atualidade.
Essa integração da humanidade deve passar por uma mudança de pensamento a favor da integração educacional (sem destruição das disciplinas ou programas), e pela construção de ciências que reúnam essas concepções de indivíduos planetários, em uma “concepção sistêmica da terra”, que supere a concepção fragmentada do mundo e distorcida da realidade e que permita, de fato, “civilizar a terra”.
Morin, Edgar - Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro 3a. ed. - São Paulo - Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2001_resenha de Luciana Rodrigues
Edgar Morin é um dos grandes pensadores da atualidade, um espírito questionador, que já excursionou por diversas áreas, inclusive o cinema.
No seu livro Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, realizado a pedido da UNESCO, mais uma vez dá mostras do quão está atento às questões mais prementes da atualidade, propondo eixos para o ato de educar mulheres e homens para novos desafios contemporâneos, como sujeitos comprometidos na superação dos grandes problemas do nosso planeta e sociedade, vitimas de visões fragmentadas que acabam por torna-los “invisíveis” aos estudos e governantes.
São EIXOS, que fique bem claro. O livro, objeto dessa resenha, não se trata de um manual ou de uma proposta de novos currículos para as escolas é, antes, uma pauta transversal para o ato de educar, o que todas as educadoras e educadores devem ter sempre presentes ao lidarem com os jovens educandos, que não podem ser ignorados ou diminuídos de importância.
Os saberes seriam:
1- O Conhecimento
2- O Conhecimento Pertinente
3- A Identidade Humana
4- A Compreensão Humana
5- A Incerteza
6- A Condição Planetária
7- A Antropo-ética
De uma forma bastante fluida e ilustrativa Morin explica cada um desses “saberes”, e eu me permito resumi-los a seguir.
O Conhecimento
Os educadores, no geral, ao ensinarem suas disciplinas nas escolas e universidades, acreditam que estão transmitindo CONHECIMENTOS. Entretanto, destaca Morin, não se ensina O QUE É CONHECIMENTO. É fundamental situar historicamente o conhecimento, como algo que não é absoluto, dogmático, não é certo, nem é um espelho da realidade. O conhecimento é algo que deve ser questionado sempre, pois se trata de uma versão, de um recorte da realidade, uma tradução, passível de erros e ilusões por ser, como tal, fruto de reconstruções.
A reconstrução é algo pelo qual também passa a nossa percepção, que se opera através de estímulos mediados por transformações, decodificações e transportes a outros códigos, tal como é o fenômeno da visão, que Morin usa para exemplificar o que seriam as reconstruções sempre sujeitas a erros.
Então percepção e alucinação podem ser facilmente confundidas por qualquer um de nós. Estamos constantemente ameaçados pela ilusão, podemos acreditar na existência de algo que nada mais é do que uma confusão da nossa mente, dissipada apenas por saberes que já possuímos ou pela confrontação com outros. A própria história é pródiga em exemplos de erros podem gerar grandes desastres, como nas guerras, onde os opositores transmitem informações que escamoteiam o que lhes pode ser desvantajoso e ressaltam os pecados criminosos dos demais.
Resumindo: devemos deixar claro que não existem verdades únicas e absolutas, pois o que podemos considerar realidade é algo permeado e mediado, fruto de traduções e reconstruções que podem advir e gerar erros, que também podem ser causados por incompreensões decorrentes de várias diversidades culturais e de origem.
Daí entra o que seria uma consideração de normalidade. O fato é que tendemos a considerar nossos pensamentos e atitudes como sendo OS normais, portanto as mais fáceis de serem compreendidos e adotados, o que, salienta o autor, pode gerar uma postura normativa. O que não estaria dentro dos nossos padrões (normais) seria considerado um desvio. O autor o observa que essa atitude não é somente comum em seitas ou ideologias políticas, mas que também a ciência já se comportou dessa forma, ao negar determinadas idéias que depois foram aceitas, em paradigmas próprios de cada época , vale usar as suas palavras ao citar Lênin "as crenças e idéias não são somente produtos da mente, mas também seres mentais que têm vida e poder; e assim, podem possuir-nos".
O problema do conhecimento deve ser colocado em tela constantemente, a todos e todas, que devem ser encorajados na arte da tentativa e erro, na busca por uma realidade, que pode, e deve, ser confrontada a todo momento, como uma grande aventura a que devemos nos lançar, preparados para uma jornada rica em incertezas e surpresas.
O Conhecimento Pertinente
Morin constata que, comumente, ao se ensinar se transmite um conhecimento fragmentado, mutilando seu objeto. Não ensinamos as condições de um conhecimento pertinente.
Se a divisão do ensino em disciplinas especializadas, por um lado, ajudou no avanço do conhecimento por outra permitiu que o que existe de conexão entre elas se tornasse invisível, sem situar o conjunto da realidade, sem ligar as partes com o todo.
Nenhum saber altamente especializado consegue dar conta de um conhecimento pertinente do mundo, como mundo, sem se colocar dentro de um contexto maior. Esse entendimento é essencial, pois o contexto global exige de todos nós a organização das informações através do acesso a elas, para reconhecimento dos problemas que nos são comuns, entendendo que os contextos locais influenciam e afetam todo o contexto global, marcado por grandes problemas. O desenvolvimento da aptidão de organizar esse conhecimento deve ser um dos eixos da educação, ligando as partes e ao todo às partes, preparando para pensarmos e solucionarmos as crises planetárias.
O livro Os Sete Saberes necessários à educação do futuro detecta uma distorção entre as ciências e as humanidades nos sistemas de ensino, que portam antinomias e separam o que deveria estar unido, uma nova cegueira para os problemas globais . O resultado disso é um enfraquecimento das responsabilidades individuais e, assim, da solidariedade.
,
A Identidade Humana
Assim como um dos eixos da educação deve ser o de contextualizar o conhecimento dentro da realidade do todo, não se pode ignorar o aspecto da identidade humana, constantemente fragmentada nas diversas disciplinas, como se ela não fosse, a um só tempo, física, biológica, psíquica, cultural, social e histórica. O ensino fragmentado acaba por tratar o indivíduo de forma fragmentada também, como se fosse possível dissociar o indivíduo como parte de uma espécie E de uma sociedade, da qual depende e pela qual é responsável.
Essa relação se dá, assim, em forma de tríade: indivíduo/sociedade/espécie e é assim que deve ser tratada na transmissão de TODOS os saberes educacionais. Todos os indivíduos são seres diversos e unos, fragmentos e todo, um não deve anular o outro, e assim devem ser tratados em todas as esferas do conhecimento.
A Compreensão Humana
A palavra compreender vem do latim compreendere, que quer dizer: colocar junto todos os elementos de explicação. A compreensão abarcaria um significado racional, objetivo e um significado subjetivo, humano. O primeiro busca significado lógico, intelectual, se baseia em explicações formais, mas que estão sujeitas a ruídos e erros diversos. O segundo vai além de qualquer entendimento lógico, de análises objetivas, por ter em si cargas emotivas que são comuns aos da nossa espécie, atraídos por empatia, identificação, projeção e que geram solidariedade.
Afundados em sua cegueira, os sistemas educacionais não se preocupam em ensinar a compreender, não demonstram que somos parte de um planeta e que o futuro dele, e do nosso, por conseguinte, nos tornam dependentes um dos outros. Não somos estimulados a compreender o próximo, esteja ele realmente próximo, como nosso vizinho, ou no outro lado do planeta. Então o que acabamos por valorizar é um individualismo nefasto, que nos faz rejeitar ou ser indiferente ao outro, destruindo qualquer capacidade de compreensão e comunicação.
A compreensão deve ser estudada em sua gênese e nas suas conseqüências, como os preconceitos de qualquer forma, sexuais, de gênero, raciais e étnicos, para que as relações de solidariedade sejam maiores dos que as diferenças geradas pela incompreensão.
A Incerteza
Um dos grandes inimigos do ato de educar deveriam ser os dogmas. As escolas devem ensinar que a inexistência de verdades absolutas levam às incertezas e que elas são, isso sim, a regra, (e não a certezas). Ao transmitirem somente conhecimentos que as ciências têm como certos se acaba por ignorar incertezas históricas que foram fundamentais, inclusive nas ciências biológicas, físicas e humanas. Assim se deu, até mesmo, na evolução das espécies, sujeitas a diversas ramificações.
Quando salientamos a existência de incertezas devemos ensinar como enfrenta-las, tendo como horizonte o inesperado. Morin cita o o poeta da ironia trágica Eurípedes (aproximadamente no ano 496 a 405 da era pré-cristã, em Ática): “O esperado não se cumpre, e ao inesperado um deus abre o caminho".
Qualquer visão determinista que procurava dar um sentido único para a história da humanidade caiu por terra frente a uma quantidade de acontecimentos graves, e totalmente inesperados, como as grandes guerras.
Ensinar para as incertezas não deve servir para desencorajar ou estimular posições hedonistas ou voluntaristas, antes deve contribuir com o entendimento de que esse futuro é aberto, incerto, mas que pode ser construído levando-se em conta os erros e as incertezas que surgem e que são passíveis de correções.
A Condição Planetária
Que somos parte do mesmo planeta e temos responsabilidades entre nós, seres humanos e ele, o planeta, já falei nessa resenha. Mas vale comentar mais uma vez que esse estudo para a UNESCO preocupa-se particularmente com a questão de que estamos todos interligados, principalmente em tempos de globalização. Tudo se conecta, tudo se liga, tudo está interdependente, todavia os bancos educacionais, soterrados por informações desorganizadas e excessivas, não conscientizam de que os problemas do planeta se agravam e afetam a todos os seres humanos, em um destino comum.
Vivemos tempos de grandes ameaças de nível global, a degradação do planeta por desastres ecológicos ou nucleares.
Então só apontar para os problemas da humanidade é muito pouco, dada as suas complexidades, embora todos estejam ligados. O ensino deve mostrar que esses problemas não estão externos aos jovens, mas que são parte de sua humanidade, e comunidade e seu destino comum, criando uma consciência planetária que deve incluir a ecologia, a luta pela qualidade de vida, a resistência à vivência puramente utilitária, valorizando os prazeres, o combate ao consumo padronizado, a emancipação em relação à tirania do lucro e o fim de qualquer forma de violência.
A Antropo-ética
O processo educacional deve ser orientado pelo que o pensador francês chama de antropo- ética.
A ética, como já foi dita diversas vezes e por diferentes estudos, depende da cultura espacial e temporal na qual está inserida. Também a moral e a ética dependem da natureza humana. Então temos presente aspectos individuais, sociais e de espécie presentes na condição humana, que fazem o indivíduo desenvolver conjuntamente sua autonomia pessoal, sua participação social e a ética já que, como foi dito, temos todos um destino comum. Somente a democracia pode desenvolver a faceta social da antropo- ética, pois é a única que permite que a relação indivíduo- sociedade se desenvolva de forma quase plena (a democracia, principalmente a representativa, possui limitações), porque a democracia é um exercício de controle, fundamental para o desenvolvimento da responsabilidade planetária.
Educar com base na antropo- ética é conscientizar sobre a cidadania, que não se limita a um espaço pequeno, comunitário, mas é planetária. Ser cidadão terreno é ser responsável pelo combate aos grandes problemas da atualidade.
Essa integração da humanidade deve passar por uma mudança de pensamento a favor da integração educacional (sem destruição das disciplinas ou programas), e pela construção de ciências que reúnam essas concepções de indivíduos planetários, em uma “concepção sistêmica da terra”, que supere a concepção fragmentada do mundo e distorcida da realidade e que permita, de fato, “civilizar a terra”.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Livro para próxima aula...
Pessoal,
Localizei um exemplar do livro Os sete saberes necessários à educação do futuro na biblioteca da Faculdade de Educação/USP. Há só 1 ex. e não há empréstimos.
Outra opção é procurar em uma biblioteca pública, veja como fazer a pesquisa em: http://bibliotecacircula.prefeitura.sp.gov.br/pesquisa/index.jsp?tipoPesq=indice
Abraços,
Elisangela
Localizei um exemplar do livro Os sete saberes necessários à educação do futuro na biblioteca da Faculdade de Educação/USP. Há só 1 ex. e não há empréstimos.
Outra opção é procurar em uma biblioteca pública, veja como fazer a pesquisa em: http://bibliotecacircula.prefeitura.sp.gov.br/pesquisa/index.jsp?tipoPesq=indice
Abraços,
Elisangela
Mais dois livros na bibliografia do curso
Oi pessoal!
O Prof. Edmir acrescentou mais dois livros à Bibliografia do Curso:
ORTIZ, Esmeralda do Carmo. Esmeralda, por que não dancei. São Paulo: Senac, 2000.
ORTIZ, Esmeralda do Carmo. Diário de Rua. São Paulo: Salamandra, 2003.
O primeiro (Esmeralda, por que não dancei) tenho no CEDOC em que trabalho e posso fazer o empréstimo a quem se interessar.
Seguem três entrevistas que localizei sobre a autora do livro, sem dúvida um belo exemplo de protagonismo e superação das adversidades:
http://www.educacional.com.br/entrevistas/interativa/entrevistado_0001.asp
http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Revista&id=100http://www.terra.com.br/istoegente/70/reportagem/rep_brilho_de_esmeralda.htm
Abraços,
Elisangela
O Prof. Edmir acrescentou mais dois livros à Bibliografia do Curso:
ORTIZ, Esmeralda do Carmo. Esmeralda, por que não dancei. São Paulo: Senac, 2000.
ORTIZ, Esmeralda do Carmo. Diário de Rua. São Paulo: Salamandra, 2003.
O primeiro (Esmeralda, por que não dancei) tenho no CEDOC em que trabalho e posso fazer o empréstimo a quem se interessar.
Seguem três entrevistas que localizei sobre a autora do livro, sem dúvida um belo exemplo de protagonismo e superação das adversidades:
http://www.educacional.com.br/entrevistas/interativa/entrevistado_0001.asp
http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=Revista&id=100http://www.terra.com.br/istoegente/70/reportagem/rep_brilho_de_esmeralda.htm
Abraços,
Elisangela
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